O Novo "Ouro Verde": Pará recupera 165 mil hectares de áreas degradadas com plantio sustentável de cacau
Pesquisa da UFPA aponta que 81% das novas lavouras na rodovia Transamazônica utilizam pastagens degradadas, consolidando a transição do estado para uma economia de floresta em pé.

O estado do Pará vem consolidando uma importante virada de chave ambiental e econômica no campo. Uma parceria de monitoramento entre a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) e a Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap) revela que, entre meados da década de 1990 e o ano passado, 165 mil hectares de áreas degradadas foram recuperados no estado por meio do plantio de cacau em Sistemas Agroflorestais (SAF).
Para se ter uma dimensão do impacto geográfico, essa área equivale a cerca de 231 mil campos de futebol devolvidos à produtividade e à conservação ambiental.
O fim do avanço sobre a floresta primária
Um estudo recente realizado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), no Campus de Altamira, comprova que o perfil do produtor de cacau paraense mudou. Se no passado a cultura avançava sobre a mata nativa, hoje ela se estabelece majoritariamente em terras já antropizadas (alteradas pelo homem).
A pesquisa mapeou todos os municípios sob influência da Rodovia Transamazônica (BR-230) — como Altamira, Medicilândia e Brasil Novo — e trouxe um dado animador: 81% das novas lavouras de cacau implantadas a partir de 2021 ocupam áreas alteradas ou degradadas, principalmente pastagens em declínio e capoeiras (sucessão secundária inicial).
"Isso mostra que as novas lavouras de cacau não estão avançando sobre as áreas de florestas primárias. Identificamos um padrão diferente do que comumente tem sido reportado em outras regiões do Brasil e do mundo." — Miquéias Calvi, professor da Faculdade de Engenharia Florestal da UFPA e coordenador do estudo.
Além do ganho ecológico, a migração para solos alterados faz sentido econômico. O produtor transforma uma terra improdutiva, que antes não gerava receita, em um ativo gerador de renda em curto espaço de tempo.
O risco do sol pleno: a importância das agroflorestas
Apesar dos excelentes números, o estudo da UFPA faz um alerta: plantar em solo degradado exige técnica. Como a terra exaurida perdeu a capacidade natural de regenerar árvores, há o risco de as novas lavouras se transformarem em monocultivos a pleno sol se não houver apoio público.
Para evitar que isso ocorra, o professor Miquéias Calvi destaca que o papel de órgãos como Sedap, Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (Seaf), Ideflor-Bio e secretarias municipais é estratégico no fornecimento de sementes e mudas florestais para garantir o sombreamento correto do cacau.
No Pará, o plantio consorciado já tem referências de sucesso global. É o caso do município de Tomé-Açu, que desenvolveu o internacionalmente reconhecido Safta (Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu), servindo de modelo de cultivo que une o cacau a outras espécies frutíferas e florestais.
Legislação rigorosa e fomento público
A exigência de sustentabilidade no Pará não é apenas uma recomendação, é lei. O engenheiro agrônomo Ivaldo Santana, coordenador do Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Cacau (Procacau), lembra que a legislação criadora do Fundo de Apoio à Cacauicultura do Pará (Funcacau) determina que o cacau paraense deve ser plantado exclusivamente sob o modelo de SAF.
Para dar suporte a essa exigência legal, o Governo do Estado atua diretamente no fomento ao produtor:
- Sementes Híbridas: O estado investe na aquisição e distribuição de cerca de 13,5 milhões de sementes híbridas da Ceplac por ano.
- Crescimento Contínuo: Graças ao fomento, o Pará expande suas lavouras de cacau em 9 mil hectares e atrai mil novos produtores anualmente para a atividade.
- Mudas para Sombreamento: O Ideflor-Bio distribui gratuitamente mudas de essências florestais para o sombreamento definitivo, enquanto mudas de bananeiras são fornecidas para atuar como sombreamento provisório nos primeiros anos de cultivo.
O Programa Territórios Sustentáveis
Outra ferramenta de destaque é o programa Territórios Sustentáveis (PTS), braço do Plano Estadual Amazônia Agora (PEAA). O PTS atua em áreas sob forte pressão de desmatamento, promovendo a transição para a economia verde. Atualmente, mais de 45 municípios já aderiram ao programa.
Por meio de convênios com prefeituras locais, a Sedap viabiliza insumos e serviços para que os pequenos produtores iniciem a recuperação de suas áreas com a implantação do primeiro hectare de agrofloresta.
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