Altamira reduziu desmatamento em 90% e transformou a merenda escolar em aliada da Amazônia

Maior município do país combina fiscalização rigorosa, rastreamento da pecuária e fortalecimento da agricultura familiar para alinhar desenvolvimento local e combate às mudanças climáticas.

FISCALIZAÇÃO AMBIENTAL

Historicamente reconhecido como o município que mais desmata no Brasil, Altamira (PA) enfrenta o desafio constante de figurar nos rankings de focos de calor. Com uma extensão territorial de 159 mil km² — área superior a de países como Portugal e Grécia —, a região carrega marcas de décadas de ocupação desordenada, impulsionada desde a década de 1970 pela abertura da Transamazônica e, mais recentemente, por grandes obras como a Usina Hidrelétrica de Belo Monte. A pecuária extensiva, o uso do fogo e a grilagem de terras consolidaram-se como os principais vetores da pressão sobre a floresta.

No entanto, dados do sistema Deter indicam uma virada histórica: entre 2022 e 2025, o município reduziu o desmatamento de 542 km² para cerca de 54 km², uma queda superior a 90%. O feito é resultado direto da intensificação da fiscalização ambiental em larga escala, aliada a mecanismos de controle da cadeia produtiva, como o rastreamento do gado, além do avanço de projetos de recuperação florestal e mercados de crédito de carbono.

A merenda escolar como motor de desenvolvimento e conservação

Paralelamente às ações de comando e controle, Altamira passou a utilizar compras públicas como ferramenta de reordenamento territorial. O fortalecimento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) emergiu como uma das estratégias mais eficazes para gerar renda sustentável e fixar o homem no campo.

Entre 2020 e 2022, a participação da agricultura familiar na merenda das escolas municipais saltou de 8% para 42%. A mudança exigiu adequações na gestão pública:

  • Diversificação do cardápio: A lista de itens adquiridos passou de 16 para 29, incorporando produtos da sociobiodiversidade local, como açaí, peixe e farinha de tapioca.
  • Inclusão de comunidades tradicionais: Foram criadas chamadas públicas específicas para populações extrativistas e ribeirinhas, garantindo a compra direta em territórios isolados, a exemplo das escolas localizadas na Reserva Extrativista (Resex) Rio Iriri.

Impacto climático e a lógica do "comer localmente"

A aposta no abastecimento territorial atende ao conceito global de short food supply chains (cadeias curtas de suprimento). Ao consumir o que é produzido localmente, o município reduz drasticamente as distâncias de transporte, a necessidade de refrigeração industrial e o uso de embalagens descartáveis — fatores que diminuem as emissões de gases de efeito estufa.

Além da logística, a própria prática da agricultura familiar contribui para o sequestro de carbono. Por operar com maior diversidade de cultivos, sistemas agroflorestais e menor dependência de insumos químicos, o setor reduz a pressão por novas aberturas de área, demonstrando que a segurança alimentar e a conservação da Amazônia podem caminhar juntas.