Seca extrema e desmatamento ameçam comunidades e agropecuária no Pará

Avanço da agropecuária e El Niño histórico reduzem rios, elevam temperaturas e expõem a vulnerabilidade hídrica do estado paraense

O Pará, um dos epicentros das transformações territoriais e ambientais da Amazônia, sente de forma dramática os efeitos do colapso hídrico que atinge o bioma. Dados da rede MapBiomas indicam que, no trimestre entre setembro e novembro de 2024, 38% das localidades da região — incluindo cidades, vilas, territórios indígenas e comunidades quilombolas — enfrentaram alta exposição à estiagem.

O impacto foi devastador por ter ocorrido na transição para a época de chuvas, deixando 93% dos pontos analisados a menos de cinco quilômetros de áreas com perda severa de água superficial.

No território paraense, onde frentes de expansão agropecuária alteraram drasticamente o uso do solo nas últimas décadas, a estiagem cobra um preço alto. Em todo o bioma, as áreas destinadas à agropecuária registraram um déficit de precipitação de 178 milímetros abaixo da média climatológica, acompanhado por temperaturas máximas 2,6 °C acima do histórico.

O resultado visível é o encolhimento de rios e igarapés, que se transformaram em lagoas rasas, provocando a morte de peixes e botos, além de isolar populações ribeirinhas e inviabilizar a pesca artesanal.

A raiz do problema combina a força dos fenômenos naturais com quatro décadas de degradação ambiental:

  • Conversão de solo: A cobertura agropecuária na Amazônia saltou de 12,1 milhões de hectares em 1985 para 65,3 milhões em 2025 — uma alta de 438%.
  • Perda de vegetação nativa: A floresta perdeu 53,9 milhões de hectares no mesmo período, uma redução de 14% da sua área original.
  • Quebra no ciclo da água: Com menos árvores para realizar a evapotranspiração, diminui a umidade atmosférica e a formação de chuvas, intensificando o calor nos microclimas locais.


A resiliência das áreas preservadas no Pará surge como o único escudo contra o agravamento da crise. Conforme aponta o MapBiomas Atmosfera, divulgado nesta sexta-feira (4), florestas intactas amortecem os impactos de eventos como o El Niño muito melhor do que áreas desmatadas. Contudo, dados do Inpe e estudos publicados em periódicos como a Nature indicam que a margem de segurança está encolhendo, com secas cada vez mais duradouras e intensas. Com previsões de um novo El Niño de forte intensidade para o fim de 2026, a preservação do que resta da vegetação nativa deixa de ser apenas uma pauta ambiental e se torna urgência econômica e social para o futuro do estado.