Tarifaço dos EUA ameaça cadeia produtiva do cacau no sudoeste do Pará

Altamira e Medicilândia, duas cidades estratégicas no mapa da produção de cacau no Brasil, podem sofrer efeitos significativos com o recente aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos

Foto: Pedro Guerreiro / Ag. Pará

Altamira e Medicilândia, duas cidades estratégicas no mapa da produção de cacau no Brasil, podem sofrer efeitos significativos com o recente aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre derivados da amêndoa. Conhecida como a capital nacional do cacau, Medicilândia concentra centenas de pequenos e médios produtores familiares, enquanto Altamira tem ganhado destaque pelo incentivo a cadeias produtivas sustentáveis na região da Transamazônica.

Entenda o tarifaço

As novas medidas, implementadas pelos Estados Unidos, impõem tarifas de até 50% sobre a importação de derivados de cacau, como manteiga e pó de cacau — produtos processados em território brasileiro. Com isso, exportar para o mercado americano tornou-se praticamente inviável, comprometendo diretamente as indústrias que atuam no processamento do fruto.

De acordo com a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), a consequência imediata é a redução de até 10% na capacidade de moagem nacional, além do risco de aumento na ociosidade das fábricas, que pode atingir 37%. Estima-se que o setor tenha prejuízo de até R$ 190 milhões em 2025, caso as tarifas sejam mantidas.

Possíveis impactos na região de Altamira

Altamira é sede de diversas ações de fortalecimento da agricultura familiar e da produção agroecológica de cacau, com iniciativas que valorizam práticas sustentáveis, especialmente entre ribeirinhos, assentados e produtores indígenas.

Com a queda na demanda internacional:

  • O valor pago ao produtor pode cair;
  • Iniciativas sustentáveis perdem competitividade;
  • Pequenas agroindústrias locais podem desacelerar ou suspender a operação;
  • Programas de apoio técnico e crédito rural tendem a ser impactados.

Medicilândia no centro da tensão

Medicilândia, responsável por parte expressiva da produção nacional, ainda não registrou oficialmente impactos diretos, mas especialistas alertam para consequências iminentes, como:

  • Redução na compra de cacau local pelas indústrias exportadoras;
  • Queda nos preços de mercado, com efeitos severos sobre o produtor familiar;
  • Desaceleração econômica, principalmente em cooperativas e associações que dependem da exportação indireta;
  • Risco de demissões ou suspensão de contratos sazonais, caso o ritmo de produção industrial seja afetado a médio prazo.

O que está em jogo

A manutenção das tarifas pode comprometer anos de avanço da cadeia do cacau na Amazônia, uma das mais promissoras do país em termos de produção sustentável, agregação de valor local e combate ao desmatamento. Também levanta preocupação em relação aos contratos firmados sob o regime Drawback, que suspende tributos de importação para insumos usados na fabricação de produtos voltados à exportação. Com o bloqueio ao mercado dos EUA, muitas empresas podem ser multadas ou obrigadas a recolher impostos retroativos.

Conclusão

Altamira e Medicilândia, dois pilares do cacau amazônico, enfrentam um momento de alerta. O tarifaço dos EUA, ainda que tenha como foco a indústria, impacta profundamente toda a cadeia de valor — do produtor rural à indústria e ao comércio local. A mobilização institucional e o apoio técnico são fundamentais para evitar perdas maiores e assegurar que o cacau continue sendo um símbolo de desenvolvimento sustentável na região.