Tilápia-do-Nilo põe em risco a biodiversidade da Amazônia

Espécie invasora e modificada geneticamente já se estabeleceu em lagoa de Altamira (PA); cientistas alertam para os riscos de colapso ecológico nos rios da região.

Nas águas calmas da Lagoa do Independente 2, em Altamira (PA) — local de lazer onde famílias fazem piquenique e passeiam com seus cães —, avança uma ameaça silenciosa, mas devastadora. Longe dos monstros da ficção ou dos jacarés que esporadicamente estampam as redes sociais locais, o perigo atende pelo nome de Tilápia-do-Nilo (Oreochromis niloticus). O peixe, originário da África e hoje onipresente na culinária brasileira, ameaça romper o delicado equilíbrio do Rio Xingu, um dos principais afluentes do Rio Amazonas.

Caso consiga se estabelecer em definitivo nas águas xinguanas, a espécie exótica pode levar ao desaparecimento peixes nativos como os acarás, alguns dos quais não existem em nenhum outro lugar do planeta.

O risco legal e ambiental: A introdução não autorizada de espécies exóticas em corpos d’água brasileiros é crime ambiental previsto pelo Decreto Federal nº 6.514/2008, com multas que variam de R$ 3 mil a R$ 50 mil. No Pará, um decreto estadual proíbe a criação de peixes exóticos em rios e lagos.

Do Rio Nilo às águas tropicais: o caminho da alteração genética

A trajetória da Tilápia no Brasil é marcada pela intervenção humana e pela expansão do agronegócio aquícola:

  • Anos 1950: Introdução da Tilápia-do-Congo para estudos em reservatórios hidrelétricos.
  • 1971: Chegada da Tilápia-do-Nilo trazida da Costa do Marfim.
  • 2002: O Dnocs (Departamento Nacional de Obras contra as Secas) importa espécimes selecionados na Tailândia para povoar açudes públicos no Ceará.

O peixe que hoje se espalha pela Amazônia já não é o mesmo que habitava o Rio Nilo. Trata-se de uma linhagem geneticamente alterada para acelerar o crescimento, produzir mais filé e resistir a ambientes superpoluídos e salinos. Segundo o Boletim da Aquicultura em Águas da União, só em 2024 foram produzidas 138 mil toneladas de tilápia em corpos d'água federais — o equivalente a mais de 172 milhões de indivíduos.

Apesar da pressão constante do setor privado para expandir a tilapicultura em tanques-redes nas hidrelétricas da Amazônia (como Belo Monte e Tucuruí), o estado do Pará barrou a prática em 2023. Em contrapartida, estados vizinhos como Mato Grosso e Tocantins já permitiram a atividade em reservatórios.

O pesquisador Leandro Melo de Sousa, especialista em taxonomia de peixes da Universidade Federal do Pará (UFPA), confirma que a espécie já formou uma população estável na Lagoa do Independente 2, com espécimes em todas as fases de desenvolvimento.

Com as fortes tempestades e enchentes recorrentes na região — como as que levaram Altamira a decretar situação de emergência —, o transbordamento do sistema de drenagem conecta a lagoa ao Rio Xingu, permitindo escapes contínuos.

Apesar da confirmação da presença da espécie invasora em fiscalização promovida pelo Ibama, a retirada dos peixes esbarra em trâmites burocráticos:

  • Ibama: Confirmou indícios da presença da espécie invasora e solicitou apoio operacional da Secretaria Municipal de Gestão do Meio Ambiente (Semma) de Altamira para realizar a despesca (retirada dos peixes).
  • Prefeitura de Altamira (Semma): Declarou estar levantando equipamentos e alegou que as fortes chuvas atrasaram a intervenção, prevendo a execução das ações de retirada até o final de julho.
  • Secretaria de Meio Ambiente do Pará (Semas): Afirmou não ter sido notificada e declarou que a retirada do animal não é de sua competência primária sem que haja denúncia formal.