Pressionado por custos operacionais, "prato feito" pesa no bolso do trabalhador paraense
Apesar de o Norte registrar uma das menores médias do país, custo da refeição fora de casa compromete fatia expressiva do orçamento no Pará.

Comer fora de casa continua exigindo um esforço financeiro significativo da população paraense. Enquanto a inflação geral dos alimentos dá sinais de trégua no supermercado, o tradicional "prato feito" (PF) mantém a trajetória de alta nos restaurantes do Pará e de toda a Região Norte, impulsionado por custos que vão muito além do arroz, do feijão e da proteína no prato.
De acordo com o Índice Prato Feito (IPF), elaborado pelo Núcleo de Estudos Econômicos da Faculdade do Comércio (FAC-SP), e divulgados nesta terça-feira (28), Região Norte apresenta um dos menores preços médios do país para a refeição, fixado em R$ 29,99. O valor fica atrás apenas do Nordeste (R$ 30,00) e contrasta com a média nacional de R$ 31,90 e com os maiores valores do país, registrados no Sul (R$ 34,90) e no Centro-Oeste (R$ 34,45).
O peso no bolso do trabalhador no Pará
Apesar do preço regional figurar na ponta mais baixa da tabela nacional, a conta no final do mês atinge em cheio a renda dos trabalhadores paraenses.
Para quem precisa almoçar fora durante os 20 dias úteis do mês no Estado, o gasto mensal estimado chega a cerca de R$ 600,00 apenas com o almoço — valor que não contempla despesas com café da manhã, lanches ou jantar. Em uma realidade econômica onde a renda média local exige cautela, a refeição diária deixa de ser uma opção de conveniência barata para se tornar um item de forte impacto no orçamento familiar.
Por que o PF continua subindo se os alimentos caíram?
A divergência entre o preço dos alimentos nos supermercados e a conta do restaurante chama a atenção. Em nível nacional, dados do IBGE apontam que o grupo Alimentação e Bebidas recuou 0,24% em junho, ajudando a desacelerar a inflação oficial (IPCA). Produtos como café moído, carnes e frutas registraram queda. No entanto, a refeição fora do domicílio seguiu o caminho inverso, com alta de 0,15% no mesmo período.
A explicação reside no fato de que o valor cobrado pela refeição em bares e restaurantes do Pará reflete uma complexa estrutura de custos operacionais:
- Aluguel e energia elétrica: Pontos comerciais nas grandes cidades paraenses enfrentam custos fixos elevados, com destaque para a conta de luz.
- Encargos e salários: Manutenção da equipe, transporte e encargos trabalhistas.
- Insumos básicos e logística: Frete local, gás de cozinha, água e tributos.
"O prato feito é a economia servida no prato. Nele estão o arroz, o feijão e a carne, mas também o aluguel do ponto comercial, a energia elétrica, o salário dos funcionários, o transporte, os tributos, o custo financeiro e a margem do empresário", explica Rodrigo Simões Galvão, economista e responsável técnico pelo IPF.
Segundo o especialista, a alta nos preços dificilmente se traduz em maior margem de lucro para os comerciantes locais, funcionando na maioria das vezes apenas como um repasse parcial da inflação estrutural.
Alerta no campo: clima pode trazer novas altas
A estabilização momentânea nos preços dos insumos também sofre ameaças no horizonte paraense. Economistas apontam que a possível intensificação do fenômeno climático El Niño pode impactar severamente a produção agrícola nos próximos meses.
A seca ou a alteração no regime de chuvas tende a reduzir a oferta de hortaliças e legumes essenciais na mesa do paraense, como batata, tomate, cebola e cenoura. Além disso, o eventual encarecimento do milho — base da ração animal — pode pressionar novamente os preços de carnes e aves, repassando nova pressão inflacionária aos estabelecimentos do Pará.
Para o consumidor e para o empresariado da alimentação no Estado, o cenário exige cautela: de um lado, clientes com orçamento cada vez mais restrito; de outro, restaurantes equilibrando a conta para manter as portas abertas sem perder clientes.
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