Verão paraense impulsiona safra no campo, mas produtores enfrentam alta de custos e gargalos estruturais

Período menos chuvoso deve acelerar a colheita de cinco cadeias estratégicas, com destaque para o açaí e o cacau; desigualdade tecnológica e logística ainda preocupam o setor.

A chegada do período menos chuvoso no Pará, conhecido localmente como o "verão amazônico", deve injetar forte ritmo no setor agropecuário do estado neste segundo semestre. A estimativa é de que a estiagem impulsione a produção de ao menos cinco cadeias estratégicas do campo: açaí, cacau, arroz, feijão-caupi e hortaliças. Juntas, essas culturas movimentam milhões de toneladas e prometem reorganizar o abastecimento e a economia regional.


Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o grande motor desse período será o açaí, cuja projeção de colheita deve alcançar a marca de 1,8 milhão de toneladas. Outro destaque robusto é o cacau, com uma estimativa de 140 mil toneladas de amêndoas. O balanço do semestre também inclui o arroz irrigado do Arquipélago do Marajó (21 mil toneladas) e o feijão-caupi (11 mil toneladas), além de um aumento expressivo na oferta de hortaliças.


O fator clima: menos perdas e mais produtividade

Se por um lado o inverno amazônico impõe severos desafios de manejo, o recuo das águas traz fôlego para as culturas mais sensíveis. É o caso das frutas e hortaliças cultivadas nos cinturões verdes que abastecem as áreas urbanas.


De acordo com Guilherme Minssen, diretor da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), a diminuição das chuvas reduz drasticamente as perdas causadas pelo excesso de umidade e pela proliferação de doenças no campo, garantindo maior estabilidade física aos alimentos.


O calendário de julho também marca o avanço de grãos como o milho e a soja, além de coincidir com a fase de parição na pecuária marajoara. No caso do açaí, o ciclo natural se favorece do clima: o fruto se forma durante o inverno e atinge o ponto ideal de colheita justamente entre os meses de julho e dezembro.


Desigualdade tecnológica e o fantasma dos custos

Apesar do cenário de fartura, o otimismo do setor é contido por gargalos que penalizam o produtor. O escoamento da safra melhora com as estradas menos lamacentas, mas a infraestrutura rodoviária deficitária no fim do período chuvoso ainda encarece o frete.


"Há aumento dos combustíveis, dos insumos e dificuldades de logística nas estradas. O cenário pressiona custos e reduz a margem de produtores em diversas cadeias", alerta Minssen.


O período seco também evidencia o abismo tecnológico entre as propriedades. Emerson Menezes, produtor rural no município de Acará e consultor da Associação dos Produtores de Açaí da Amazônia (Amaçaí), explica que sistemas que utilizam irrigação e tecnologia conseguem manter a produção estável o ano inteiro. Por outro lado, quem depende exclusivamente do clima sofre. "Hoje, produzir sem irrigação no verão é prejuízo certo", avalia Menezes.


PROJEÇÃO DE PRODUÇÃO - PARÁ (2º SEMESTRE)

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│ Açaí: 1,8 milhão de toneladas │

│ Cacau: 140 mil toneladas │

│ Arroz Irrigado (Marajó): 21 mil ton │

│ Feijão-Caupi: 11 mil toneladas │

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Mercado instável e pimenta em queda

O fechamento das contas no fim do mês tem sido um exercício de paciência para o homem do campo. Entidades do setor demonstram forte preocupação com a volatilidade dos preços. O mercado do açaí, por exemplo, vive um paradoxo: segue caro para o bolso do consumidor final na ponta, mas entrega uma remuneração considerada baixa para quem colhe na base.


A pimenta-do-reino, historicamente uma força exportadora do estado, amarga uma redução no volume produzido. O cacau também enfrenta um momento de atenção devido à queda recente nos preços pagos ao produtor, embora o volume de amêndoas dê sinais de recuperação. Como alento, a mandioca — que mantém colheita regular o ano todo e ganha força na época seca — começa a apresentar sinais de reação e valorização no mercado.


O segundo semestre se desenha, portanto, como um período de motores aquecidos e produção recorde na Amazônia paraense, mas cujo sucesso real dependerá de como o setor vai equilibrar a balança entre a alta produtividade e os severos custos de produção.